Estigmas da ficção
Boas-vindas, caríssimos lingos, a mais uma Crónica da Coroa!
Hoje iremos de viagem para a arena da ficção audiovisual, onde nada é o que parece... mas é, ao mesmo tempo. É engraçado pensarmos no cinema e realizações adversas como quase realidades. Nos live-action existem pessoas reais a contracenar, onde o objetivo é sem dúvida variável, porque depende de inúmeros fatores para acontecer de uma maneira específica e desejada pelo produtor. Por exemplo, uma adaptação está sujeita à obra original, ainda que a versão final naqueles termos não vá exatamente ao encontro de TUDO o que está presente e componha a matéria-prima.
Olhem o Harry Potter, por exemplo. Os verdadeiros fãs sabem do que falo!
Mas não é este o foco.
Ainda no outro dia estive a ver crack videos de Dance Moms, aquele reality show com a Abby Lee Miller bastante polémico, diga-se passagem.
Não vou mentir: eu passo horas a ver e a rever TODOS os crack videos de Dance Moms, feitos por um canal específico do YouTube, a ponto de já saber praticamente todas as falas de cor de cada recorte. Adorava dar-lhe um shout out aqui, mas não sei se posso. Deixo isso com o futuro ;)
Houve uma parte, numa das competições, em que a Kaya, também conhecida no programa como Black Patsy ("bode expiatório preto", what the f-), começou a falar mal da forma como a Nia dançava, diante da Holly, que era a própria mãe da jovem, a Abby e a Melissa (mãe de mais duas dançarinas do programa). Do pouco que eu ainda vi de Dance Moms, (acho eu,) a Kaya sempre foi muito conflituosa. Com ou sem motivos, não sei, AINDA.
Enfim, o que realmente importa neste flashback é o típico sotaque que eu, em parte, já estava à espera de ouvir a Kaya falar, por ser uma produção com os estadunidenses metidos ao barulho, obviamente. É um sotaque que todos reconhecem e associam logo às pessoas pretas, tanto homens como mulheres, que falam em inglês exclusivamente americano, acho eu. Não quero arriscar dizer a origem desse sotaque, até porque isso agora não interessa nada.
Pois bem, na crónica de hoje vamos falar dos estigmas da ficção, um tema que não é fácil de se digerir, por si só, mas que não é complicado de se expor por escrito aqui.
Como é sabido da gente, o planeta adora meter os padrões no centro das atenções. Só o que faz parte de uma moda é que é, e passo a citar as palavras da própria Abby Lee, "cool and trendy".
Que graça. Nenhuma das pessoas que conhece este programa, incluindo eu, tem a certeza se isto até foi um elogio ao cabelo da Kelly Hyland, ou se a Abby não estava mesmo a conseguir explicar-se na denúncia. Mais uma vez, OS VERDADEIROS FÃS SABEM DO QUE FALO!
Quando o assunto corresponde às minorias, o povo tende a criar estereótipos para rotular tudo, de forma a tornar-se mais fácil de se reconhecer X pessoa ou não em determinada condição.
"Do que é que tu estás a falar?"
Vejamos este exemplo da Black Patsy. Nós não temos a certeza se, de facto, a Kaya fala daquela forma. No entanto, sabemos que na ficção é uma constante pessoas pretas dialogarem exatamente assim. E é estranho, não acham? Porque depois, no dia-a-dia, deparamo-nos com outras pessoas pretas, que não são poucas, por acaso, com um sotaque originalmente americano ou britânico e sentimos na pele o quão non-sense isto é.
Mas não fica por aqui, juventude!
Vamos agora aos homossexuais. Quantas vezes é que nas novelas, nas séries, nos filmes, nos dramas, nos musicais, enfim, no que for, estão representados como personagens que têm obrigatoriamente "tiques estranhos" e profissões bastante comuns, como cabeleireiros, esteticistas e etc.? Ou que conhecem alguém que, ao início, não é gay mas puff!, agora já é, assumem-se e acabam o enredo a casar-se e a ter filhos?
Ai ai... é quase a mesma coisa que ver a sociedade a afirmar em praça pública que só os homossexuais podem apanhar HIV.
Nem todos querem constituir família, em primeiro lugar. Em segundo, nem todos querem casar,
o que percebo, perfeitamente, porque só de pensar no balúrdio em que a festa toda fica no final dá-me a volta aos intestinos.
Em terceiro, nem todos fazem da homossexualidade o centro dos seus interesses, e para além de que, tecnicamente, nem todos os homens que se relacionam com outro são exclusivamente homossexuais. Os bissexuais também contam na estatística, minha gente! Queria eu ver um roteiro onde um bissexual que estivesse com outro homem ao início acabasse no final numa relação com uma mulher.
Mas sabem porque é que isto não acontece (e eu também percebo)? Porque, ao mesmo tempo que se tem noção desta persistente inconsistência, desfechos deste género não agradam o público LGBT, porque por um lado "é super aborrecido e fora de clima" e por outro, já não podem sexualizar à vontade as personagens que lhes são mais atraentes, porque simplesmente deixaram de o ser com esta mudançazinha na área de jogo.
O que me resta dizer aqui? Ah, já sei. AMIG- quer dizer, LINGOS! Uma pequena aula sobre sexualidade humana: um bissexual não deixa de o ser, apenas porque está numa relação com um homem ou mulher! Ele/ela vai continuar a sentir a atração por ambos na sua medida!
'Tá esclarecido ou não?!
Dasse.
Vamos ao próximo: personagens com excesso de peso. Eu sei que é muito giro achar que só as personagens hot é que vão ficar com alguém que é igualmente um grande canhão (masculino ou feminino, é indiferente), seja em que contexto for, ou que o protagonismo é todo com eles, e que para os gordos só sobram as vagas invisíveis para bobo da corte e palhaço de circo, solitário, com humor que nunca mais acaba, sem uma vida visivelmente decente. Aliás, este tipo de coisa é tão real que a Rebel Wilson, uma atriz australiana que fez parte da trilogia "Um Ritmo Perfeito", revelou num podcast chamado "Call Her Daddy" que, no contrato a que esteve "presa" até 2020, foi proibida de perder peso para se manter no estereótipo que mencionei acima, principalmente na trilogia, sendo que ela, logicamente, ambicionava poder encarnar outro tipo de personagens e projetos.
Bom, não sei se os produtores precisam de ler isto (pelo que estou a ver talvez precisem), mas ultimamente tenho visto o peso a mais de certas pessoas a dar-lhes bastante sorte, e eu aqui quase feito um anorético a ver-me na obrigação de ter que pedinchar por consideração aos de fora.
O que quero dizer com isto? Os oversized do mundo também podem ser o destaque e receber a sua merecida importância. Também podem ser os melhores, os mais bem-sucedidos, os... comprometidos. 'Ya, comprometidos, entendem? Aquele sentido de humor que Hollywood lhes embutiu à força durante este tempo todo tem-los feito saírem a ganhar muito mais do que se imagina!
Agora eu quero ser gordo para também ter essas regalias. Só que não, estou bem assim :')
Por fim, uma alínea mais polémica: predefinição a priori dos atores e atrizes para filmes das mesmas categorias.
Vou desenvolver: sabem quem é a Kristen Wiig? Eu sei, pelo menos.
Uma mulher linda, diga-se passagem.
Grande parte dos seus papéis foram em produções só de comédia. Sabem o Adam Sandler? A mesma coisa. O Chris Rock também, a Maya Rudolph, o Seth Rogen, e por aí fora. É como se o facto de terem feito uma mão cheia de gravações naquele âmbito fosse motivo suficiente para os perpetuar na categoria, o que é bastante aborrecido.
Nos Oscars 2020, a Kristen Wiig, em conjunto com a Maya Rudolph, no seguimento das nomeações para Design de Produção que iriam apresentar, referiram direta e indiretamente para todos os (produtores) presentes, através de uma pequena brincadeira de interpretação, que "fazem mais do que comédia". Isto não é prova que chegue do que digo?
Boa semana!
Silver



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