Redes sociais: uma espiral sem fim
Boas-vindas, caríssimos lingos, a mais uma Crónica da Coroa!
Hoje vamos embarcar por maresias mais dificultadas e, na sua maior parte, propícias ao encontro de todos os tipos de cibernautas que possamos imaginar. E porquê? Porque é a vez de se falar da crescente espiral que são as redes sociais.
O meio de navegação mais utilizado pelos humanos de todo o planeta no século XXI poderia muito bem ser um belo cacilheiro com a tinta a descascar, mas a Internet conseguiu vencê-lo só por existir: multifacetada, permite ao utilizador ser e fazer praticamente tudo o que quiser, desde passar por um simples anónimo que responde ao post de um blog (como este ;) ) até escrever uma tese relacionada com algo para o qual nunca estudou um único ano da sua vida.
No cacilheiro podem fazer o quê? Conter o vómito enquanto atravessam o rio?
Ora, as redes sociais fazem parte deste universo como... cafetarias com esplanada, diria eu.
Sabem quando vamos beber café a um sítio qualquer e nos sentamos numa das mesas (tanto serve para as de dentro como as de fora) por um bom bocado a ver tudo a acontecer à nossa volta? De repente, entra um homem que, aos nossos olhos, está completamente acabado e nem tem ponta por onde se lhe pegue. Cinco minutos mais tarde, surge uma idosa muita simpática... mas com o cabelo a precisar de uma valente manutenção. Mais dali a bocado, chega ao balcão um Zé Tintas com pinta de porco a pedir duas cervejas à casa, com vontade de trazer uma das serventes como sobremesa para a sua casa. E antes de nos irmos embora, uma gorda mal educada decide passar ali pelo ganha pão de quem mantém aquilo de pé para os infernizar, tudo isto com base naquilo que o espaço vende ao público.
Agora eu pergunto: tanto durante a nossa estadia naquela mesa como depois de a abandonarmos, a opinião pessoal acerca do que se viu é inevitável... certo?
Para a maior parte da malta que frequenta, claro.
Pois bem, nas redes sociais acontece exatamente a mesma coisa, só que de forma diferente. Passo a explicar, figurativamente falando:
- Ao chegarmos ao balcão, o servente verifica sempre se podemos ter acesso a uma mesa naquele estabelecimento.
- De seguida, solicita-nos uma das nossas chaves para poder dar a quantidade certa de energia para a nossa mesa funcionar corretamente.
- Ali, não existe um limite para se disponibilizarem mesas. Há sempre espaço para mais uma.
- Temos que dizer um código secreto. Se nos esquecermos depois, podemos recuperar a nossa mesa com um código novo. Se alguém souber o nosso código, com a mesma chave, também consegue acesso a ela e pode fazer o que quiser.
- Assim que tivermos mesa, podemos pedir o que nos apetecer, desde que seja da nossa vontade, com exceções e direito a sugestões.
- Assim que nos sentamos, tudo o que fazemos pode ser visto pelas outras pessoas nas outras mesas, desde que mostremos e seja permitido pelo estabelecimento. Isto pode ir de um desabafo a uma foto íntima.
Estou a ir muito pelo "oito ou oitenta" hoje. O que se passa comigo?
- Podemos interagir com outras mesas, até que elas nos fechem os seus estores, seja por que motivo for, ou cancelem o aluguer da sua mesa, até. Atendendo ao que os donos nos deixam ver do que fazem, podemos gostar, comentar o que nos apetecer e passar para outras mesas.
OK, preciso mesmo de estar aqui a enunciar tudo o que se pode fazer com uma conta nas redes sociais? Acho que não, até porque de acordo com a estatística, no ano passado, 78,5% dos portugueses eram utilizadores de redes sociais, e presumo que quase 100% destes 78,5% continuem a sê-lo.
Agora, onde é que a forma como as utilizamos nos entala no fusilli? Muito simples.
Por exemplo, nos dias de hoje, é possível ganhar-se dinheiro com a nossa influência na Internet, influência essa que só os nossos seguidores podem determinar, através dos gostos, comentários, partilhas, republicações, etc., consoante o conteúdo que nós postamos, seja ele qual for. E mesmo que não se ganhe um único cêntimo com qualquer publicação nossa, podemos mexer com a população cibernética por várias vias. A nossa unicidade definirá, sem qualquer sombra de dúvida e com a fórmula certa, o alcance que te(re)mos.
O problema, neste caso em específico, é que o resultado disso pode trazer tanto de bom como de aterrador.
Suponhamos: eu tenho a minha vida profissional enquanto um autor independente. Por qualquer motivo, a partir do conteúdo que publico relacionado com os meus livros, começo a ganhar o meu sucesso. Através do meu alcance, algumas marcas podem provavelmente reparar em mim e contactar-me para as promover, a troco de dinheiro, se sentirem que sou a pessoa ideal para o fazer. O meu sucesso vai crescendo, até conquistar valores de audiência e de vendas sólidos, com fãs e haters à mistura, previsivelmente. Mas de repente, uma acusação, com fundos de verdade ou não, muda a minha carreira por completo. Perco os patrocínios e as estatísticas da clientela entram em declínio acentuado, enquanto anos a fio do meu trabalho são levados por uma simples descarga de água.
Para ajudar na destruição deste cenário, devo relembrar que na Internet, qualquer um pode ser um médico ou até um juiz. E para cada utilizador deste mundo tão facilmente acessível, está a tornar-se cada vez mais difícil provar fundos de verdade que o são, de facto. Imagine-se um escândalo com sentimentos de pessoas, influencers ou não, envolvidos. Como é que se prova uma tristeza? Ou uma sensação de alegria? Ou até sintomas reais de depressão? A volta que se teria de dar em busca de documentos, relatórios, médicos físicos, testemunhos, fotografias, vídeos... para comprovar a inocência ou culpa de uma vida que nos é alheia, mas que pode ser como a nossa.
Vamos a outro caso igualmente chocante e frequente: bodyshaming. Não precisava de estar aqui a dizê-lo, mas... não nascemos todos iguais. Nas redes sociais, existem gordos, magros, sardas, sinais, cabelos curtos, longos, lisos, ondulados e crespos, sorrisos, olhos com várias cores, grandes e pequenas barrigas, finas e largas ancas, cinturas bem e mal definidas, altos, baixos, brancos, pretos, gays, héteros, preconceituosos, pacifistas, demasiado honestos, demasiado falsos, introvertidos, extravertidos, simpáticos, antipáticos, atrevidos, tímidos, e...
Daqui a bocado fico sem ar.
E no meio de tantas pequenas características, o que é que reina, mais uma vez? O padrão. E por mais que tentemos negá-lo, muitos de nós seguem uma mesmice que diz respeito a uma comunidade, seja no comportamento, na opinião ou até no que se gosta.
"Mas qual é o problema de se gostar do que se gosta?"
Nenhum. O problema está na forma como, intencionalmente ou não, invalidamos o que não gostamos, simplesmente porque não gostamos. Isto é apenas a forma mínima da coisa, porque se formos falar de quem generaliza por uma nação inteira, a afirmar que nela todos preferem o mesmo na sua forma X, a coisa só tende a piorar e as consequências a intensificarem-se. E não há maior prova do que digo do que, num caso genérico, alguém vulgar se deparar com a foto de uma mulher com peso a mais, a amar-se completamente por escrito, publicada para todos verem. Se a crítica não é escrita, garanto-vos que não deixa de ser falada.
O pior neste que já se tornou um dilema do século XXI é que agora, uma boa parte dos utilizadores está condenado à força desta espiral, onde as memórias do que já foi uma rede social, em termos de princípios, moralidades e valores, estão perdidas algures nos registos dos nossos momentos mais especiais, onde ainda tínhamos amigos e família do nosso lado incondicionalmente, sob a forma de "arquivo". E quando cada memória celebra o seu aniversário de publicação, nalguns casos, nós podemos ter acesso a ela porque a plataforma nos faz questão de relembrar o que já foi, da forma como foi, e aí sim inspiramos profundamente aquele aroma que só a realidade da nostalgia nos permite sentir, onde percebemos o quão lá no fundo da areia movediça estamos. Mas como o espetáculo de marionetas tem de continuar, só temos duas opções: ou partilhamos novamente, ou damos scroll e seguimos em frente.
E não vou mentir: dói-me saber que, no poder da sucção, vemos os nossos irmãos mais novos, primos ou até conhecidos com idades mais tenras, a seguir a crescente aderência a este tipo de plataformas, onde o narcisismo reina, com os estereótipos de beleza predefinidos bem definidos, e a empatia possui a forma de um fantasma psicadélico: achamos que está lá por entre palavras vazias, quando não existem provas concretas disso em boa verdade.
Já imagino o slogan da próxima rede social. "Bem-vindo(a) à Partilha, onde podes ser tu mesmo(a)... com base naquilo que te mostramos!"
Ainda vamos a tempo de ensinar às próximas gerações o poder que o amor-próprio, a união e a empatia têm sobre o mundo, e que tais valores conseguem mandar abaixo a m#$da em que as redes sociais se tornaram.
Boa semana!
Silver



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