Banalização do preconceito

Boas-vindas, caríssimos lingos, a mais uma Crónica da Coroa!

O tema de hoje serve propósitos mais sérios. Causas históricas. As necessidades dos mais oprimidos. As guerras dos enfraquecidos pela suprema maioria. Todos aqueles que morreram pelos que ainda se mantêm de pé para lutar por aquilo em que acreditam!

Calma, estou só a ir demasiado ao fundo do poço.

Desde que o Mundo é mundo, a sociedade sempre foi composta por grandes diferenças sociais e culturais, caracterizadas com base na raça, (que é um termo que, na minha opinião, deveria ser considerado arcaico mal fosse aplicado a seres-humanos,) país/continente de origem, orientação sexual, peso, religião, entre outros termos de diferenciação. No entanto, também se sabe que, no meio de um arco-íris com tanta cor e luz... há sempre quem não se relacione muito com perfeitas imperfeições. Pessoas que, mesmo antes do tempo dos reis, já davam significado à expressão "termos de diferenciação". Indivíduos que constituem um conjunto monocolor a que gosto de chamar: o grupo-modelo.
Ora pois bem, o grupo-modelo é uma expressão que, por uso popular, identificaria pessoas normais, de acordo com os parâmetros da sociedade: brancos, magros ou atléticos, heterossexuais, cristãos ou não, com um estilo comum ao dos demais, a ganhar o mesmo que a maior parte dos cidadãos, cabelo normal, crenças normais, enfim... tudo normal!

Espera aí: não há uma loja chamada Normal cá em Portugal? (uma ou mais)

Neste grupo, todos aqueles que fogem ao estereótipo são diferentes, e nalguns casos, alvo de repúdio.
Tendo em conta que, atualmente, em pleno 2024, já vários tipos de discriminação conseguem ser combatidos e estejam numa insistente partida de ténis, isto é, pessoa A profere ódio para pessoa B, pessoa B rebate com ou sem argumentos, pessoa A devolve *(vezes) infinito e pessoa B devolve também *infinito, uma pequena fissura social, quase sempre externa a estes problemas diretamente, abre-se para ser ocupada por dois tipos de pessoa:
  1. as que acham que já não podem dizer nada;
  2. as que tentam passar discursos de ódio por debaixo da mesa, sobre a forma de "opiniões".
E é a existência desta última comunidade o motivo pelo qual a crónica de hoje está a ser publicada. Hoje vamos falar de banalização do preconceito.

Estava a ver que não anunciava o tema, f-

Vamos lá ver uma coisa: a liberdade de expressão foi, e é certamente, um dos ideais mais impulsionadores de cada revolução contra uma ditadura. Por exemplo, em Portugal já aconteceu, a 25 de Abril de 1974, com a Revolução dos Cravos, e também no Norte de África e Médio Oriente, em quase vinte países, tais como a Síria, a Tunísia, o Egito e o Iraque, a partir de 18 de Dezembro de 2010, com a apelidada Primavera Árabe.
Ainda que possa não ser a principal razão para se querer uma mudança, a queda de uma ditadura sabe bem a quem nunca teve a oportunidade para ser como é, depois de tanta opressão e anos a fio passados por minorias que foram tratadas pela sociedade de forma a continuarem a ser vistas como tal.
Mas, como tudo na vida, há limites. A nossa liberdade não deve nunca transpor a de outras pessoas, independentemente do quão iguais/diferentes sejam de nós. Nem o grupo-modelo se deve achar superior aos demais, nem vice-versa.

"Mas nós já sabemos disso. Onde é que tu queres chegar?"

Assim como as defesas foram evoluindo ao longo de décadas, séculos talvez (dependendo das causas), as ofensivas também. Posso dizer que, na atualidade, nunca senti tanta desconfiança por parte de certas pessoas, a partir do momento em que abrem a boca e qualquer comentário seu comece com:

"Na minha opinião.../Eu acho/penso que..."

ou pior, (só que aqui a discrição é facilmente desmontada,) os que introduzem verbalmente o pensamento da seguinte forma:

"Eu não tenho nada contra... mas..."

Reparem: se há um mas, há algo contra. Por isso é que se desmonta facilmente!
Também é possível usar as expressões acima para finalizar o vómito ortográfico (, ou argumento inofensivo, nos casos em que assim o é). Ou seja:

"... mas isto é apenas a minha opinião ou aquilo que eu acho/penso.",

que muitas vezes finaliza uma vinda em paz, com a bandeira branca, enorme e ondulante bem lá no alto.
E agora, sei que muita gente deve estar a pensar:

"Pois, mas agora já não se pode dizer nada porque já é tudo considerado preconceito!"

Eu sei que nalgumas situações, a intenção até é a melhor e mesmo assim levam por tabela algo que nem era suposto ir na vossa direção, propriamente. E nesses casos, dou-vos "razão", ou melhor, a certeza de que irão ser perdoados pelas pessoas certas (, porque também sei que há malta obstipada da cabeça).
Porém, para o resto da malta, que tem esta reclamação no top 1 de falas mais utilizadas à mesa ou em convívio com outras pessoas, deixo um pequeno e humilde conselho por escrito: em conjunto e moderação, a empatia, a noção e o respeito são o que nos permite dizer o que pensamos, sem nunca ferir alguém ilegitimamente. E é por isto que, em cenários selecionáveis, duas pessoas podem dizer exatamente a mesma ideia a um público, cada uma à sua maneira, e por vezes só uma das versões passar para a frente.

"Então e aqueles indivíduos que nos dão na cabeça porque usamos certas expressões preconceituosas, mas quando são eles entre si ninguém leva a mal?"

Existe um conceito expressivo (cuja estrutura estilística eu também criei, mas que é bastante popular,) chamado: nadar sobre o leite derramado.
Isto acontece quando as pessoas inseridas numa mesma causa ativista que ainda está de pé utilizam termos, muitas vezes do calão, que constituem repúdio na sua naturalidade ao estarem na boca de agressores sociais, entre si. Por exemplo, duas pessoas gordas têm o free-pass de se chamarem "gorda, baleia, boneco(a) da Michelin", etc., se estiver tudo bem para ambas.
Originalmente, chorar sobre o leite derramado dá a indicação de uma lamentação sobre uma má ação que já está feita, por parte do autor dessa ação. Neste caso, nadar sobre o leite derramado refere um aproveitamento "positivo" acerca da ofensiva que elementos oprimidos na sociedade pela mesma "dor" passam no seu dia-a-dia.

"Mas-"

Mxiu.

"MAS-"

MXIU.

"MAS-"

A crónica acabou :)


Boa semana!

Silver

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