Menstruação

ALERTA CC — Crónicas da CoroaÚLTIMA HORA: SILVER DESCOBRE QUE É MENSTRUADO AOS 19 ANOS

Entenda o caso!

Não, ainda não aconteceu por acaso. Mas sim, o assunto de hoje é menstruação. Aquele preparado aromatizante de 0 refeições que ficou preso na incubadora feminina à espera das boas graças de Deus um mês inteiro, sem qualquer taxa de sucesso, convertendo-se posteriormente ao ateísmo e entregando-se à arte suicida.

Confesso: se assim não fosse, não consigo ver outra forma de as mulheres terem o período.

Irregular nuns casos, bastante certinho noutros, emerge à superfície da existência delas como o primeiro castigo que a biologia anatómica tem guardado, desde que são um girino cabeçudo nas redondezas de dois planetas gémeos com H grande, ansiosos por encontrarem a sua amada Bola de Falopim num universo inversamente paralelo e musculoso.

Gostaram? Eu também não.

E este acontecimento bárbaro, como se não fosse suficiente ter a Bloody Mary a picar o ponto ocasionalmente debaixo das suas saias, assola a vida de uma boa quantidade de mulheres, para não dizer todas porque há casos e casos, repetindo-se consequentemente até das duas uma: ou a Sangra-Aqui falece, ou a rececionista despede-se e abrem falência da cancela inferior nas finanças da Life.

Agora, onde é que isto me mete no assunto?
Bom, para começar, até aos dias de hoje, não sou uma mulher. Pelo menos, que eu saiba, não biologicamente. Porém, facto curioso: sou bastante "mulherengo", não por andar a comer pêssegos a semana inteira, mas sim por conviver com muitos pessegueiros. E sem eu pedir, ainda que me sinta, como direi? ESPECIAL, não deixo de ter afixados na memória todos, repito, TODOS os relatos destes mesmos pessegueiros sobre o flagelo que é esvair-se pela toca da frente de vez em quando.

Desde facas de cozinha espetadas nos ovários a apatia total, muitos são os sintomas que posso aqui citar sem qualquer tabu sobre esta exclusiva realidade. O mais comum no Livro de Reclamações é, sem dúvida alguma, a marca na calça branca (ou numa de outra cor, mas a branca sobrepõe-se all the time).
Agora para os homens: imaginemos nós, que estamos muito bem nas nossas vidas, e de repente, a nossa genitália decide, por si só, promover de forma ativista a incontinência exacerbada, sem a menor antecedência ou espaço de tempo suficiente para vestirmos o raio de uma fralda por baixo da roupa. Estranho, não é? Isto porque, para além do cheiro que se instalaria nos nossos próprios arredores, que por si só não é nem de perto agradável, seria bastante desconfortável toda a experiência sensorial, principalmente a que o tato iria produzir no nosso cérebro!

Só de pensar já me estou a arrepiar por completo.

Agora, reforçando o POV, vou aprofundar: suponhamos que, na sua revolta e insatisfação crónicas com tanto caos, a genitália decide comprar ações de influência direta na nossa cabeça, ganhando ACESSO TOTAL à sua base de controlo psicológico e emocional. Aqui a coisa agrava-se, e bem. E bem...
É que nem consigo processar cá dentro o que seria isto estar a acontecer-me a meio de um dia de trabalho numa loja de vendas, numa hora em que um potencial chefe meu, admirador da minha cara de enterro e luto pela própria desgraça, tomasse a errada decisão de me aconselhar, dizendo "Devias ser mais sorridente, sabes? Ter uma postura mais simpática e convidativa, tanto com a clientela como com a equipa!"

Não vou mentir: se eu fosse um dragão, não sei se iriam restar sequer as cinzas depois disto.

Para terminar a espreitadela, com amor (muah): no auge das suas aquisições, a tão famosa genitália realiza uma última. A mais bombástica de todas. Não adivinham? Claro que não, nem eu quero. Aqui vai: o Viaduto das Decisões! Giro, não é? E como nada é suficiente, envia para a central via tubos pequenos, tubos médios e tubos grandes um documento enorme (em PDF, claro), rebentando com o Código de Estrada em vigor e instaurando uma nova regulamentação, onde só se permite o transporte de atos e impulsos irracionais, principalmente os que conjuguem dinheiro, parentes e o próprio bem-estar, e proíbe a circulação com prudência e cautela.
Por exemplo, imaginem a palhaçada que seria para nós, numa fase pós-período, lembrarmo-nos de que no limiar da sensação de afogamento mental, doámos toda a nossa fortuna a uma instituição sobre a qual sabemos zero informações pertinentes, porque o/a nosso/nossa marido/mulher não nos deu um beijo ao chegar a casa. Eu sei, é um absurdo, principalmente o facto de, felizmente, isso ter sido apenas uma projeção bastante real da nossa própria mente.

OK, não é bem "felizmente", se pensarmos que quase ninguém tem uma fortuna em Portugal.

"'Tá bem, Zé. Já entendemos a história. A que ponto queres chegar?"

Muito simples: ainda que o que disse nas inúmeras linhas acima fosse meramente hiperbólico, com uma intenção cómica, obviamente (, porque ainda não sou pago nem bem, nem mal, para fazer de palhaço ou boneco por escrito), trata-se de um conjunto semelhante de sensações e vivências que muitas mulheres levam a cabo com um esforço impressionante durante o período menstrual, e tudo isto porque a Biologia assim o exige por si só. Não foram elas que escolheram, lingos. Pelo menos, não desta vez.
Para além de ser algo que divide a igualdade sexual de forma afiada, também consegue provar a estigmatização permanente até aos dias de hoje de toda a desconsideração alheia que elas levam por tabela há muitos anos, desconsideração essa na maior parte dos casos da nossa autoria: homens.
Nenhum homem pode negar que, no nosso dia-a-dia, já não o fizemos pelo menos uma vez com alguma mulher, seja de que forma for, porque a nossa atenção não queria estar para aí virada, o que é perfeitamente normal. Temos preocupações, responsabilidades (*wink* pela crónica anterior) e dores de cabeça que chegue, e isso só seria mais uma para acrescentar à conta.
Agora pensem comigo uma última vez: não acham injusto, e pouco recíproco, tanta indiferença da nossa parte para com as pessoas que nos ouvem quando mais ninguém o faz, que nos acolhem na nossa solidão, que nos deixam de barriga cheia, ou que apenas nos amam por aquilo que somos, numa altura que lhes é extremamente crucial e tecnicamente imprevisível? Não nos fica bem.

Ser mulher não é nada fácil, principalmente nos assuntos que envolvam a sua própria existência ou a dos que ama. E por isso, falando em nome de todas as esposas, mães, tias, professoras, amigas, enfim, mulheres, serve este fim de crónica para dizer: com a nossa ajuda e compreensão incondicional, grande parte das suas dores serão bem mais fáceis de se sobreviver. Vão por mim :)

Força guerreiros e guerreiras! E boa semana, já agora.


Silver

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